Sexta-feira, Abril 15, 2005

Diario 00 - Vou a Guine!

Vou à Guiné! O Carlos Azevedo convidou-me para integrar um projecto dele, o “Por Todo o Mundo”. O Carlos inventou uma boa desculpa para vadiar: quer percorrer de moto todas as latitudes habitadas. O plano dele é fazer do Cabo Norte a Lisboa, de Lisboa à Guiné e depois recomeçar à latitude da Guiné mas na América da Sul e ir até à Terra do Fogo. Como dificilmente conseguiria organizar a vida pessoal e profissional para fazer a viagem de uma só vez, assumiu isso e funcionará por etapas. Investigou os transportes marítimos e a história dos Carnet’s (os passaportes para veículo indispensáveis em certos países). Há pouco tempo, o Enrique (o espanhol a quem chamamos no Nomad’s “o cônsul galego”) deu-lhe uma dica boa – a Grimaldi tem uns cargueiros com rampa de embarque que conseguem levar passageiros e veículos ao longo da costa africana. Estamos à espera da confirmação de lugar num desses barcos para embarcar até Dakar – depois descemos à Guiné e voltamos para cima, de volta a casa. O Carlos (R1100GS) convidou-me a mim, ao Teles(R1150GS) e ao Miguel Casimiro (XLV1000). Se me restavam dúvidas quanto à moto a levar, dissipei-as. Vou ter de levar a GS, senão vou numa brutal inferioridade de potência (e de velocidade de cruzeiro!). De qualquer forma, prevê-se que a maioria do trajecto seja por estrada pavimentada. Desta vez não há Erg’s para atravessar e espero safar-me com a GS, mesmo configurada para viajar em autonomia. Pelo sim pelo não, levo a roda grande (21”)à frente. Estou habituado ao ónus que ela traz em estrada (menos manobrabilidade e menos estabilidade em alta velocidade) e os ganhos em TT são consideráveis. Estamos em cima do acontecimento, há quem tenha que gastar férias em excesso até ao fim de Abril e há quem não tenha férias que cheguem mas vai ter de as inventar. A data concreta para irmos e voltarmos continua dependente da confirmação do barco que está difícil de obter. Juntámo-nos duas vezes mas foi improdutivo – comemos chouriços assados, bebemos uns canecos, contámos anedotas e rimo-nos um bocado com a perspectiva de aventuras fantásticas e com a certeza que uma preparação tão incipente vai certamente rechear a viagem de imprevistos irresolúveis! O mais que conseguimos avançar é na definição dos países a atravessar - também não é difícil :-). Feita essa definição, o Teles encarregou-se de ir às embaixadas pedir os vistos para todos. O Carlos está a preparar um plano alternativo. Se não houver barco da Grimaldi, vamos por terra e regressamos de Bissau por barco/avião. A chatice é que se não fôr o barco da Grimaldi, as motos não podem vir a granel e terão de ser contentorizadas... Continuamos à espera da confirmação da Grimaldi mas faz-se tarde. Meio a brincar já dizemos que vamos nem que seja indo e voltando por terra (mas eu sei que não tenho tempo que chegue). Entretanto levámos o golpe de misericórdia! O barco da Grimaldi está cheio de legionários que vão render as guarnições que França tem na África Ocidental. Nada feito. Agora há que ser rápido. O Carlos, inexcedível como sempre, deu gás à coisa. Conseguiu investigar o que é preciso para re-exportar as motos por contentor a partir de Bissau e passa a ser esse o plano definitivo. Fecham-se os planos de férias – informam-se os chefes e as famílias e eu, que vou ter de regressar de avião e peremptoriamente a 3 de Maio tenho de estar a bulir, compro o bilhete de regresso. A sorte está lançada! Tenho muita coisa para preparar na moto – e falta muito pouco tempo. Valeu-me o meu amigo Miguel Amorim – tratou de tirar as tripas a um catalisador velho que tinha lá na garagem, reparou-me a protecção do carter que já se tinha desintegrado há que tempos, reforçou-me a aranha da frente numa zona que tinha partido, ensaiou-me o transporte do combustível extra que vamos precisar entre o Barbas e Nouakshott... A semana anterior é um frenesim, tenho que aviar as receitas dos medicamentos, levar a vacina da febre amarela que já caducou, comprar um tal cartão de crédito que dá direito a seguro de viagem, ir levantar o carnet, ir carimbá-lo à Alfândega em Lisboa, preparar cópias dos documentos e as famosas “fiches” para os controlos policiais. E preparar profissionalmente a minha ausência: fico sempre com a sensação que isto das férias não compensa – trabalha-se demais no antes e no depois. O André Espenica mandou-nos mapas, uma lista de waypoints e links para informação porreira sobre o Senegal. Tenho que imprimir isso. Decidi não levar o PDA, é menos uma coisa para me chatear.

Sábado, Abril 16, 2005

Diario, dia 01 - Lisboa - Asilah (Marrocos)

Na véspera foi a noitada da ordem. O meu amigo Rui Gomes deu-me uma ajuda preciosa, no que já constitui uma tradição impecável nas noitadas antes das viagens grandes. De modo que às 8 lá estava na área de serviço do Fogueteiro, onde tínhamos combinado o primeiro encontro, nós os que saímos de Lisboa. Tínhamos à despedida o Luís Lourenço, o Nuno César, o Luís Carlos e o Carlos Cordeiro com o filho e que nos escoltou com a sua Pan European até Alcácer onde nos juntámos com o Teles. Mas isso foi só às 10H00, que o Miguel Casimiro estava um bocadinho atrasado e esqueceu-se do carnet em casa J. A hora de saída até nem foi má, considerando que ainda anteontem às 9 da noite o Casimiro dizia “Tenho que ir fazer as malas” querendo com fazer significar a manufactura dos próprios recipientes!

Na autoestrada o Casimiro ignorou a saída para Beja e nós ignorámo-lo a ele e instruímo-lo por telefone para se nos juntar em Tarifa. Assim aconteceu, sem mais histórias, por volta das 5 e meia da tarde.Antes de saír da Comunidade tínhamos que carimbar o famoso Carnet ATA, o documento que permite a re-exportação da moto quando voltar de Bissau no barco. Confirmaram-nos no porto de Tarifa que isso se fazia ali, de maneira que comprámos bilhete para o ferry rápido das 20 e fomos para as tapas depois de um bocado de conversa com uns conhecidos de Alenquer que lá encontrei . Às 7 e meia tivemos uma surpresa desagradável – afinal o Carnet não é carimbável em Tarifa. Lá resolvemos o reembolso do bilhete do ferry e fomos para Algeciras. Aí sim, carimbámos o carnet num ápice, comprámos bilhetes para um barco sem sequer especificar para onde (vá lá que não fomos parar a Ceuta!) e no meio desta aceleração vi uma GS cinza com uma top case familiar. Era a moto do Gonçalo Mata, um amigo de quem já não ouvia há uns tempos e que ia para Marrocos por Ceuta na companhia de uma 650 GS! Despedi-me com pena e ainda apanhámos o barco das 21H00 para Tanger. Demorou foi séculos a zarpar e só atracou em África à meia noite e meia. As formalidades na fronteira de Tanger demoraram. Toda a gente sabe o que é o Carnet ATA mas nunca mais estava tratado. Depois ainda nos pediram para preencher também o papel verde da importação temporária. O que é facto é que com as duas coisas vou mais descansado. Este ano a moto do Teles não fica em Marrocos, caraças! Só deixámos Tanger às duas da manhã, depois de termos inaugurado “o bolo”: decidimos viajar em regime comunista. Trocámos todos a mesma quantidade de dirhams e qualquer despesa será paga indiscriminadamente por qualquer um de nós. Se todos trocarmos a mesma quantidade de divisas, todo o dinheiro estrangeiro pertence em partes iguais ao colectivo. Simplificou muito os abastecimentos, as contas de refeições e alojamentos, ...tudo! Viva o comunismo! Avançámos noite dentro até Asilah onde alugámos um apartamento numa espécie de motel/parque de campismo. Dormimos que nem calhaus.

Domingo, Abril 17, 2005

Diario, dia 02 - Asilah - Agadir

Aviámos a autoestrada até Setat.

Como tinha o saco de depósito fui pagando as portagens de todos e o frete despachou-se rápido. A GS canta que nem um relógio a 130. A diferença de conforto para a KTM com que fiz o mesmo trajecto o ano passado é notória. Por vezes esticamos mais um bocadinho, mas a autoestrada em Marrocos continua mal vedada e não convém baixar a guarda. A Marrakesh chegámos eram umas quatro da tarde. Decidimos cometer a heresia de comer Mac Donald’s na terra das tagines para avançar o mais possível para sul.

Marcámos Agadir como objectivo do dia e chegámos lá já depois do pôr do sol. Encontrámos um motel jeitoso e fomos jantar bem, à marginal, ao Chez Mimi. Arrefecemos na esplanada e voltámos a bater o dente para o hotel. Amanhã há o Sahara Ocidental para começar a descascar!

Segunda-feira, Abril 18, 2005

Diario, dia 03 - Agadir - Boujdour

A manhã esteve chôcha – a luz esquisita, núvens bem altas e uma neblina rasteira

Almoçámos “atum” à beira da mega estrada enquanto reflectíamos na estupidez que foi fazer a estrada até Tarfaya de noite no ano passado. Está muito vento e as motos vão permanentemente inclinadas alguns 10º. Se o vento de Leste não mudar entretanto, acho que os pneus vão ficar mesmo assimétricos

.

Ao longo do dia vou ciclicamente lutando com o vento com o pescoço e com os braços. Acho uma posição mais confortável que resulta por meia hora e depois tenho que procurar outra, que o alívio dura pouco

Lá demos à costa no Bojador, já guiados pelo respectivo farol. O hotel escolhido não é grande espingarda (e já estou a ser simpático)

mas dormi bem depois de ter jantado camelo a ouvir o Kenny Rogers. Amanhã ficámos de sair cedo – na casa de banho não me demoro de certeza :-)

Terça-feira, Abril 19, 2005

Diario, dia 04 - Bojador – algures a sul de Nouahdibou (Mauritania)

Alvorada às seis!

Ninguém trouxe relógio mas vamos fazendo a média dos relógios das motos, cada uma no seu fuso horário. Parece que às 08h30 estávamos a rolar com o pequeno almoço tomado na pastelaria ao lado do Titanic. Decidimos só almoçar na fronteira mauritana! O Sahara pareceu-me hoje mais bonito, a luz abriu um bocadinho, a temperatura perfeita! Passámos o desvio para Dakhla, prestámos os nossos respeitos ao monumento do Quim no trópico de Cancêr (23º27’)

e finalmente atingimos o Barbas, a última estação de serviço/hotel/fábrica de conservas antes de Nouakshott. Atestámos o que há para atestar.Eu levo 10 litros extra (além dos 30 da Adventure) em duas latas de diluente dentro das malas. O Teles leva um jerrycan de 20 litros no lugar do banco do pendura. O Miguel artilhou dois jerrys de 10 litros cada atrás das costas. Enquanto isso, o Carlos Azevedo fuma um cigarro, com o ar divertido de quem tem um depósito de 43 litros. As motos ficam é todas igualmente pesadas com’ó cacete!

A fronteira marroquina fez-se nas calmas, e temos autorização para avançar para o campo de minas. A terra de ninguém continua com o mesmo aspecto lunar, desolador e estranho. O track que temos no GPS, e o único que nos permite atravessar aquilo em segurança, está desactualizado. Passa por alguns troços difíceis – areia funda e cheia de sulcos. O pessoal entretanto já inventou outra passagem que parece mais transitável mas ainda não é desta que nós vamos experimentar. A travessia de alguns troços ofereceu mesmo bastante dificuldade – mandei um tralho, atasquei, moí um bocado de embraiagem, o que é facto é que a moto está pesada mas também há a desadequação de quem acabou de fazer 3000 km de asfalto e o atrofio mental de ser aqui o verdadeiro início de uma grande viagem para uma moto de 300 kg num areal tipo Comporta rodeado de minas.

Mal entrou na areia a moto do Carlos resolveu fazer uma gracinha como a AT do Luís Lourenço com o fusível fundido o ano passado. Neste caso foi um borne da bateria desapertado. Numa viagem destas – com objectivos fixos de distâncias a percorrer em determinado prazo, a sensação de uma avaria é terrível. O motor soluça e todas as nossas certezas vacilam, o céu encobre, os pássaros calam-se e o coração e outras partes do corpo ficam pequeninos.

Há anos que anseio viajar sem essa pressão – adorava um dia viajar de tal maneira que uma avaria me divertisse – “Paraste? Óptimo! Também estava cansado e assim aproveito para passar aqui três semanas enquanto me enviam o Motronic lá da Europa” A areia demora a conquistar e é precisa concentração. Lembrei-me das palavras mágicas que o João Rodrigues me disse uma vez na Comporta – andar na areia requer confiança e eu sei que sei fazer aquilo! Resultou! No troço seguinte deixei a moto trabalhar e levei-a com os pés para onde foi preciso. Tive um bocadinho o sentimento de quem capitaliza um investimento a longo prazo J Está claro que no dia seguinte tive a sensação do jogador que perde tudo à roleta mas isso é outra história J Entretanto os outros avançam com desempenho parecido. Foi uma coisa porreira nesta viagem – temos graus de auto-suficiência muito parecidos. Se eu atascar sei que um dos outros também deve estar prestes. Depois ajudamo-nos mutuamente e seguimos. É porreiro não ter a sensação de que estamos a atrasar os outros e os outros não nos atrasarem a nós. E se alguém ficou para trás não dura muito a angústia de saber se está bem. Reduz-se um bocadinho o andamento e passados uns momentos eis que aparece a luzinha que falta lá ao fundo.

A infraestrutura fronteiriça mauritana está ligeiramente melhor mas nada que comece a parecer uma alfândega. Continuam a ser três barracas forradas a cartão por dentro onde nos vão extorquindo com maneiras variáveis de 5 a 10 euros por cabeça. Isso predispôs-nos a aldrabar a declaração de divisas. Vamos estar muito pouco tempo na Mauritânia e não nos apetece ter de ir trocar dinheiro legalmente e voltar a mostrar o guito todo à saída. Decidimos declarar a improvável soma de 255 euros para todos. Os gajos sentiram-se insultados na sua inteligência e fecharam-nos dentro da barraquinha – agora ninguém sai e queremos ver o que está neste bolso e naquele e naquele, sim naquele. A primeira coisa que nos ocorre é que a Mauritânia é uma república Islâmica e que pode estar em vigôr a sharia, a lei religiosa. Olho por olho (bem o olho não tirámos a ninguém) O que é que se faz aos mentirosos? Corta-se-lhes a língua! Bom... enquanto começávamos a imaginar sentenças de morte, prisões perpétuas, castigos corporais e multas gigantescas o Miguel refundiu não sei quanto não sei onde e eu enfiei 10 euros no bolso das calças e fui topado. Mas ganhei tempo com a manobra e enfiei quase 500 euros no meio dos carnets que já estavam carimbados em cima da mesa. No fim da revista e sem se esforçarem muito os gajos tinham descoberto mais 480 euros e passaram-nos um responso. Foi só o susto J, lembrámo-nos das recomendações do Quim e seguimos rapidamnete pois era tarde para comermos a primeira refeição do dia assim que saíssemos da vista da fronteira. Apanha-se um bocadinho de alcatrão e a promessa da nova estrada Nouadibou – Nouakshott, mas acaba logo depois de cruzar a linha do comboio do minério.

Depois começa a pista das obras – é uma mistura da antiga pista dos camiões com os desvios que a construção da estrada foi impondo. Não é fácil nem bonita. O pôr do sol estava eminente e avançámos o mais que podemos na expectativa de ainda encontrar um sítio simpático para acampar. Não aconteceu – o vento não descia de intensidade e montámos campo a umas centenas de metros da pista atrás de 3 acácias raquíticas, transparentes ao vento e que ameaçavam furar-me o colchão. O vento não deixou fazer serão e fomos para o choco muito cedo.

Quarta-feira, Abril 20, 2005

Diario, dia 05 - De algures a sul de Nouahdibou a Nouakshott

Hoje foi um dia muuuuuuuitoooo comprido... desmontámos campo e fizémo-nos à pista das obras. Ainda se fazem alguns quilómetros sem alcatrão. As obras têm alguns troços com muita areia e não são fáceis. Depois aparece uma estrada que começa no meio do deserto, como se lá não pertencesse. Vai mesmo existir a ligação por estrada entre Nouahdibou e Nouakshott!

Resolvida a terra de ninguém, vai ser possível descer toda a África Ocidental por alcatrão. Ainda há poucos anos e a passagem da fronteira Sahara Ocidental /Mauritânia tinha de ser feita em comboio militar! Vamos ver o que esta ligação por alcatrão vai trazer. Provavelmente, vai passar a existir um Barbas a meia distância das duas cidades principais da Mauritânia. A exigência de autonomia de combustível deixará de ser importante, simplificando a logística de quem viaja para Sul. A questão da navegação deixará de existir. Que tipo de turismo se deitará ao caminho? Para nós, os 300 quilómetros de alcatrão que se seguem anunciam-se uma seca. E no entanto, apesar da luz feia, embaciada até aos 45º de elevação pela permanente poeira do deserto, hoje estou contente de ver o Sahara a esta distância.

Não há dúvida que quanto mais física e mais lenta é a nossa progressão, mais contacto temos com tudo. Com as pessoas, com os elementos e até com a terra. Quem já viajou a pé ou de bicicleta deve saber do que falo. Nós, nas motos, mantemos a proximidade aos elementos. E em todo o terreno mantemos com a terra um contacto físico, consubstanciado na poeira que vamos comendo e nos 50 metros à nossa frente que temos de avaliar 50 vezes por segundo, sob pena do contacto com o piso se tornar ainda mais físico! Hoje, aqui preguiçosamente no alcatrão, ocorre-me a analogia das viagens “de alcatrão” com o avião. Vê-se tudo melhor de lá de cima, mas o contacto, a ligação, reduzem-se. O que é facto é que hoje estou a ver o deserto como não tinha visto o ano passado. Mas duvido que a minha perspectiva fôsse a mesma se não tivesse experimentado o que o Quim me proporcionou, o contacto com o deserto virgem, a sensação de horizonte inexplorado e intocado. O vento Leste continua a castigar-nos pescoços e braços. Às vezes a estrada inflecte para NW e vamos à bolina, outras vezes orienta-se mesmo a Oeste e vamos à boleia: meio centímetro de punho e estamos a 120 km/h! O ano passado passeei por este mesmo deserto um livro de um autor que desconhecia, o Bruce Chatwin. Foi por mero acaso que o livro foi escolhido para a viagem, mas acontece que, a haver um esteta, um teólogo para o nomadismo, esse homem foi o Chatwin. Foi uma coincidência engraçada que teve quase o sabor de uma revelação! Avante... lembro-me que o Chatwin conta que o realizador Werner Herzog, outro vadio empedernido, afirma: “viajar a pé é uma virtude, o turismo é um pecado mortal”. Acho que começo a perceber o que é que eles querem dizer. O que será viajar de moto? Ainda é turismo e pecado. Mas acho que é pecadilho. Pecado mortal é o turismo do resort e transfer :-) . Será que um dia deixo a moto e começo asceticamente a palmilhar a pé milhares de quilómetros?

Acabou o alcatrão e com ele a reflexão metafísica. Ou desces à terra a bem ou a mal, é a gravidade a lembrá-lo J. As obras recomeçaram e estamos já abaixo da latitude de Nouamghar. A oeste está a pista da praia, a mítica pista da maré baixa que todos já conhecemos e que tínhamos combinado não fazer. A ideia é ganhar o máximo tempo possível para as maravilhas a Sul de Nouakshott. Pois... “Vamos pela praia?” “Buga!!!!” Um polícia num posto de controlo perdido no meio das obras confirma as indicações do GPS,o ponto onde a praia passa mais perto é em Tilouit, e para mais segundo ele a hora é a ideal porque a maré esteve baixa ao meio dia. Lá descobrimos uma espécie de acesso que nos deixa a uns duzentos metros do Atlântico. É só cruzar umas dunazitas pequenas e estaremos na praia. Com estas motos carregadas é de facto mais fácil pensá-lo que fazê-lo. Mas somos quatro e mal seria se não conseguíssemos.

Correu tão bem que, com as motinhas já na consistente areia molhada e já viradinhas para Sul, tomámos um banho merecido e almoçámos na calma. Só faltam 200 km para Nouakshott e a maré já vamos ver como é que está... Estava... a encher e com força. J Foi o que percebemos depois da primeira excitação que nos dá sempre que andamos naquela praia. Tivemos que começar a rolar mesmo à beirinha da água, nalgumas passagens havia pedras e lá tivemos que fazer umas trialeiras.

Até que o Carlos é atacado com mais força por uma onda e a GS arreia. Já levantada, recusa-se a pegar. A pista da praia parece subitamente muito má ideia! Arrastámos a moto mais para cima e começámos a desmontar coisas. O filtro de ar está molhado mas não parece que a moto tenha bebido água. Pelo sim pelo não, tirámos as velas. Estão secas mas o que é facto é que não faíscam. Vimos os fusíveis todos, desmontámos todas as fichas, trocámos os cabos de alta tensão, secámos bobines, intercambiámos relés com outra GS e nada. Canhão de ignição? Sensor de Hall? Devíamos ter trazido o esquema eléctrico... isso e um multímetro a funcionar. Esqueci-me de verificar o meu e pelos vistos não tem pilhas. De que serve um multímetro sem pilhas na pista da praia, na Mauritânia? Em desespero de causa e após as derradeiras tentativas infrutíferas telefonamos, via satélite, ao nosso anjo da guarda, o João Rodrigues. “Centro de Apoio a Deficientes Mecânicos , boa tarde!”

Foi bom ouvir a voz calma do João, mesmo com o atraso do satélite. “Já secaram as bobines? Isso deve ser o sensor de Hall. Desmontem a tampa da frente e arejem bem tudo. Daqui a um bocado ela pega”. Só de o ouvir fiquei logo convicto que a motinha ia colaborar! Seguimos à risca as recomendações e... nada. Esperámos e... nada. Começámos a equacionar as alternativas: Chegar tudo para cima e acampar, quando a maré descer ir buscar uma pickup... Última tentativa e... não é que ela pegou!!!!!!!!!!!!!!! Fizemos uma espécie de dança da chuva, e arrumámos tudo a correr. O Carlos ficou tão contente que gastou o foguete que levava para quando chegássemos à Guiné.

Agora há que fazer os quilómetros de praia que nos separam de Nouakshott com a maré bem cá em cima e o lusco-fusco a descer. Tirámos o ar possível aos pneus e rolamos na areia seca, vou agradecendo mentalmente as sessões de treino na Comporta, mas por vezes o deserto morre mesmo no mar e não há praia por onde rolar, só dunas. Outras vezes são pedras...

O Miguel vai à frente e manda a Varadero às ondas sem problemas! Nós vamos ficando para trás a pensar em mais avarias... às tantas damos com ele: a moto caída na espuma, uma mala já desmontada e ele a salvar os pertences tipo Luís de Camões J uma coisa épica! Bom, a coisa não estava fácil e a 25 km’s do destino passamos um acampamento de pescadores. Eu, sempre de olho no GPS, não fôsse o bicho desaparecer, tentei confirmar. A maré ainda ia subir mais e o que faltava de praia já não era mesmo transitável. Havia uma ligação à estrada de alcatrão que passa uns 8 kilómetros para o interior. Derivámos para lá, já de noite. A tal ligação é tramada – areia mole, funda e sulcada pelos jipes que levam o peixe. Deixo caír a GS uma vez. Levanto-a e depois deixo-a cair mais uma vez, e outra e outra. Concentro-me e volto a cair, experimento em pé e idem. Sento-me, arranco com os pés no chão e caio. Penso, estou cansado, mas não é razão para tanto atrofio... caio novamente! Bom, arrasto-me devagar até que finalmente encontramos o alcatrão. Aí, bebemos a água que sobrava. Já não sobravam era muitas forças para dar à bomba e encher os pneus, de maneira que decidimos fazer os 25 km’s que faltam devagar. Entretanto percebi porque é que caí tanta vez ali atrás! Na primeira queda entortei a protecção da manete direita e tenho a roda da frente travada. Dah... Ainda faltava um episódio: no alcatrão rolei depressa demais. Ia a pensar que o pneu tubeless podia aquecer e descolar da jante quando isso aconteceu, prái a 80 à hora.

Já furei atrás e à frente várias vezes, mas nunca tinha tido um descolanço súbito. A viagem podia ter acabado ali para mim! Varri a estrada toda primeiro para um lado depois para o outro até que consegui parar na berma. O pneu tinha descolado completamente de ambos os lados. Não ia ser possível colá-lo sem ar comprimido forte. A solução foi montar-lhe uma câmara de ar. Operação concluída chegámos, enfim! a Nouakshott. Íamos com o waypoint do albergue onde está a Isabel, a portuguesa que conheci o ano passado em Ouadane.

A Isabel está fora por uns dias mas o Auberge Sahara tem um aspecto porreiro e lá nos abancámos. É tarde, mas dizem-nos que ainda estará aberto o Bab l’Ksar, o restaurante onde no ano passado descobrimos apoteóticamente cerveja Sagres gelada. É para lá que vamos finalmente respirar fundo! Acabámos com o stock de Sagres e tivémos de passar à Heineken. Bem jantados, de volta ao Auberge, o primeiro taxi que apanhámos desiste da corrida. Explicámos “para o Auberge Sahara ao pé do Carrefour da route de Noauhadibou”. O gajo deve ter percebido, “para Nouahdibou, através da route do Sahara” J disse “Non, non...” estacionou do outro lado da rua e saiu do carro, deixando-nos lá dentro!!! À segunda tentativa, levam-nos sem problema nenhum e podemos finalmente ir descansar. Foi um dia muuiiiiiiito comprido!

Quinta-feira, Abril 21, 2005

Diario, dia 06 - A pastar em Nouakshott

Depois de tanta acção e emoção ontem, resolvemos ficar hoje aqui e só voltar à estrada amanhã de manhã. A ideia era dormirmos até tarde e darmos uns carinhos às motos. Mas o ritmo das alvoradas com o nascer do sol já foi interiorizado pelo relógio biológico.

Levantámo-nos cedíssismo. Saímos em busca de oughias (a moeda mauritana a que chamamos atouguias...) É feriado e os bancos estão fechados, de maneira que o taxista nos leva a um mercado onde uns mouros (expressão dele) negoceiam no mercado negro. Para nossa surpresa, o papel moeda foi reformado! Acabaram-se as notas com que lidámos o ano passado e que literalmente se desfaziam. Depois fomos procurar pequeno almoço. Escolhemos a esplanada do iraquiano. Não se ponham a imaginar uma esplanada exótica, daquelas com empregados fardados e croissants quentinhos J. É um boteco como todos os de Nouakshott, capital pobre de um país paupérrimo. Perguntámos as horas e são 08H15. Mas põem-nos uma ementa à frente como se fôsse hora de almoço. A sensação que já tinha levado daqui o ano passado confirma-se: não há uma hora morta nesta cidade! Tudo bule a toda a hora, as lojas, os mercados, as farmácias. A única coisa que parece fechada às 08h15 da manhã de um feriado são os bancos.

Para nós também já parece hora de almoço. Deitamos abaixo omeletes com um sumo de laranja esquisito e uma cafézada potente. O iraquiano tenta trocar umas palavras de português connosco – diz que esteve 10 anos no Brasil. Mas ou nunca falou bem ou está enferrujado. O nosso mísero francês consegue ser melhor. Entretanto vimos que há um cybercafé mesmo ao lado. São assim as capitais modernas – muita tecnologia da informação :-). Fomos revelar ao mundo que tínhamos vencido a pista da praia e a primeira avaria mecânica. Enquanto lutava com o maldito teclado AZERT que os malditos franceses legaram a estes países, topei uma mancha gráfica conhecida pelo canto do olho. Não é que o parceiro do lado estava a surfar o advrider.com?! Olhei com mais atenção e confirmei. Meti conversa, era um holandês, viaja sozinho numa KTM 640 como a minha. Que por sinal está com o descompressor automático avariado... começo a sentir-me mesmo muito contente por ter trazido a BM J. O holandês parece que está à espera de uma peça e depois segue para o Senegal e Mali – não tem limite de tempo. Despedi-me um bocadinho invejoso... Voltámos ao albergue e demos uma lavagem sumária às motos para as livrar da areia salgada. Entretanto, vamos topando os outros clientes: um grupo deles, franceses, viaja num autotanque de bombeiros alemão que ainda traz as mangueiras no tejadilho e gasta 20 e tal litros aos 100. Outras, belgas, num Land Cruiser com bom aspecto. É tudo pessoal alternativo, são jovens mas parecem um bocadinho anacrónico, como que saídos fresquinhos de Woodstock... parece-me é que eles ficam muito tempo no albergue a falar francês uns com os outros... já nós, que supostamente deveríamos estar a dar manutenção às motos, acabou-se-nos a paciência. Decidimos ir almoçar ao porto de pesca, às barraquinhas de pescadores onde no ano passado comi uma refeição completa por 55 escudos...

Azar, é feriado e as barracas acompanham as instituições finaceiras! Estão fechadas!! Oito ou oitenta, almoçámos num hotel com ar condicionado à beira da praia! Pelos padrões mauritanos é luxo asiático. Numa mesa adjacente uns oito russos e uma única russa acompanham a refeição a Jonhny Walker Black Label como se fôsse refresco. Como o país e os costumes são islâmicos um deles vai pudicamente pondo e tirando a garrafa dentro de um saco de plástico

O almoço ficou-nos caro e decidimos logo que hoje fabricaremos o jantar. Até lá decidimos ir dormir para a praia e vadiar entre os barcos de pesca.

Como hoje é feriado poucos saíram para o mar. É pena, pois a chegada das centenas de barcos ao fim da tarde era um espectáculo a que esperávamos assistir.

No regresso ao albergue, pedimos ao taxista para nos levar ao mercado dos animais. Ouvi dizer que lá se continuam a vender e organizar a maior parte das caravanas de camelos que ainda transitam o interior da Mauritânia. Explicado isto ao taxista, comprova-se mais uma vez o nível rudimentar do nosso francês: o gajo leva-nos por vielas estreitas ao indescritível mercado da carne e chama um amigo para nos vender uma perna de camelo! O aspecto da carne - ou do que dela se consegue ver por debaixo das moscas - é deplorável! O Miguel, que achava que “peixe não puxa Varaderos” está chocado J!! Não obrigado, o jantar é mesmo massa com chouriço, tudo manipulado por nós!

O taxista só percebeu onde queríamos ir quando o Miguel lhe disse, enquanto se abanava e segurava umas rédeas imaginárias: “Se je veux acheter un chameux pour monter, ou est’ce qui je vais?” “Tu veux acheter un chameux pour monter??!!!!” com a expressão de incredulidade ainda estampada no rosto explicou-nos que sim, que existe o mercado mas fica a uns 15 km’s para Este. Ainda não será desta a visita, mas enquanto se despedia, o taxista ainda se ria com a perspectiva de comprarmos quatro camelos.

Entretanto fomos atestar as motos e repôr a pressão dos pneus (íamos gripando o compressor – aqui ninguém usa 3 kg/cm_!) e agora que já é noite e está escuro podemos ir fazer a tal manutenção prometida às motos. Ficou-se mais pela intenção mas é o que conta. O Teles insistiu em trocar a lâmpada do farolim traseiro. Renitente em sair do casquilho, acabou por se partir e cortar-lhe o polegar com alguma profundidade. É uma oportunidade que espero há muito tempo! Fiz o meu ar mais profissional e disse-lhe que era indispensável “um pontinho” sob pena de se desencadearem gangrenas, septicémias, amputações... curiosos, os outros concordaram!

Vou poder suturar o dedo ao Teles e aumentar assim a minha experiência de socorrista! Já com a agulha bem espetada no dedo o gajo borrega... bah, menina! Atamancámos aquilo com cianoacrilato e steristrips, vamos ver se aguenta. Amuado, eu acho que não, mas o dedo é dele. Jantámos chouriço assado em whisky e massa (bem picante, a minha!). Depois de tudo arrumado o Miguel arranha uns acordes numa viola que já só tinha 5 cordas.

O Albergue fica já pago, custou-nos 5 Euros/cabeça/noite. Deixo um recado à Isabel lamentando não cumprir a tradição: fotografar as bonitas ilustrações do seu diário. Amanhã saímos cedo para garantir que atravessamos a fronteira com o Senegal e chegamos a St.Louis. O Teles, mesmo com o dedo amassado, já ronca.

Sexta-feira, Abril 22, 2005

Diario, dia 07 - De Nouakshott a Sant Louis (Senegal)

Saímos... cedo, claro. Só para deixar o granel de Nouakshott leva-se meia hora. Ainda no subúrbio as casas/barracas vão-se espaçando mais, e depois mesclando com tendas. Passámos um cemitério, uma simples plantação de lápides, anarquicamente na areia, estranho... a luz aqui é mais intensa, menos filtrada, aumenta enquanto a latitude baixa. É sinal de que vamos apanhar menos vento...

Depois de parar um dia é bom voltar a andar de moto. A temperatura está a aquecer e de facto não há vento. Tenho os sentidos bem abertos, com a consciência de que só hoje começamos a pisar território novo. Mas é curioso, o deserto aqui começa a parecer-me o de Bou Lanouar, o das acácias dispersas, o da pista do comboio, como se obedecesse a uma qualquer lei de simetria e a Sul se espelhasse o que já conhecemos a Norte. E assim de repente, 160 km’s andados, assim a seguir a uma lomba, aparece de repente uma zona de vegetação mais intensa. São só acácias, pequenas, mas muitas. É isto o Sahel? Abrandámos todos o andamento, todos conscientes que o deserto mudara efectivamente. Contrariamente à minha expectativa, essa mudança não é gradual.

Quando chegamos a Rosso, aí sim, já dá para perceber que há um rio por perto. A estrada é bordejada de árvores. Rosso tem o mesmo ar mísero de todas as cidades mauritanas, agravado pelo facto de ser uma fronteira concorrida. Atestámos as motos e seguimos caminho. Queremos fazer uma pista que corre ao longo do rio Senegal e nos levará à fonteira de Djama, menos movimentada. Enquanto parávamos numa boutique para comprar água fomos interceptados por uma “melga” que insiste em nos vender um seguro. Segundo ele, o seguro será necessário para passar a fronteira, não se vende em Djama, amanhã começa o fim de semana e na segunda seguinte é feriado,... os argumentos sucedem-se de rajada. É tudo obviamente mentira e torna-se muito irritante quando o gajo insinua que tem amigos na fronteira e saca do telemóvel para, em hassania, descrever a nossa comitiva... mandamo-lo “comer atum” e vamos à nossa vida.

A pista é bem gira, e rompe a monotonia da condução “alcatroada” de hoje. Encontrámos uma sombra que nos resguarda um bocadinho da enorme caloraça. Paramos para almoçar e aproveitamos para organizar as papeladas para a fronteira. Desta vez escondemos com muito cuidadinho o dinheiro que não queremos que nos vejam. Mesmo assim vamos escaldados... acabámos por não trocar nenhum dinheiro legalmente pelo que vamos ter de mostrar exactamente os euros que declarámos à entrada (melhor dito, que nos obrigaram a declarar) e jurar pela tese de que não gastámos um cêntimo em toda a travessia da Mauritânia. Vamos lá ver o que isso vai dar. Enquanto arrumávamos a tralha para recomeçar a andar, o Teles chama a nossa atenção: vindo de Nordeste um ciclone aproximava-se. Uma barreira de poeira precedida por uma ventania desordenada. São ventos do deserto.

Arrancámos imediatamente e percebemos que íamos despedir-nos dessa referência geográfica tão forte. O rio Senegal marca o limite ao Sahara de uma forma taxativa. É estranho como um simples rio divide o que parecem ser dois continentes diferentes – a África do Sahara da África negra. À nossa esquerda paúl verdejante, à nossa direita o deserto ventoso.

Até chegar à fronteira, a pista atravessa uma zona de parque natural, vêm-se uns pelicanos, flamingos e outros passarocos de que não sei o nome.

Na fronteira, do lado mauritano cumpre-se o ritual exército-polícia-alfândega. Aqui a liturgia é abrilhantada com mais uma etapa: a comunidade também cobra, alegadamente por causa do parque natural que acabámos de atravessar. Estávamos nós a choramingar um desconto na polícia quando aparece mais uma moto. É o holandês do cybercafé de Nouakshott. Conseguímos incluí-lo no pacote: passamos cinco pelo preço de quatro. O rio Senegal atravessa-se sobre a barragem de Djama e também se paga. O desconto pague 4 atravesse 5 manteve-se.

Do lado senegalês somos recebidos de forma cortês mas autoritária. Compramos seguro a uma senhora que estava a dormir a sesta e lá andámos a negociar o desconto de 20% para o grupo luso-holandês. Tudo somado, para passar da Mauritânia ao Senegal gastam-se uns cobres apreciáveis. Como se não bastasse, no primeiro controlo policial após a fronteira, voltam a querer extorquir-nos. A coisa é posta como sendo obrigatória, mas com margem para negociação, o que demonstra logo o carácter de bakshish. Deixa uma impressão profundamente negativa. À escala do custo de vida e do rendimento médio naqueles países, o pessoal fronteiriço saca quantias exorbitantes e deve viver mesmo muito bem.

A pista, chapa ondulada e areia, prossegue quase até St.Louis. Para nós é uma pista boa, mas certas passagens de areia estão um bocadinho no limite. Já o holandês diverte-se abrindo as goelas à cabeça hi-flow e ao Akrapovic da 640. Hum... e começa a dar-me a inveja outra vez... O deserto desapareceu de vez! A pista é ladeada de árvores e quase surreal para nós que estamos acabadinhos de sair do Sahara. Passamos nos arrabaldes de Saint Louis, em direcção ao Zebrabar, um camping em plena Langue de La Barbarie, um istmo que é também parque natural.

O holandês decidiu acompanhar-nos e está exuberante: fala pelos cotovelos, tira fotos e dá umas gásadas à LC4 para se meter com os primeiros senegaleses que encontramos. Na fronteira queixou-se-nos que tinha achado os Mauritanos tristes e pouco comunicativos. O que é facto é que o francês dele ainda deixa mais a desejar que o nosso. E o nosso é muito bera. Lembrei-me da minha viagem a solo à Bósnia. Em quatro ou cinco dias na Croácia e na Bósnia não consegui entabular uma conversa que passasse dos monossílabos. E lembro-me da exuberância que senti quando reentrei em Itália, consegui pedir o pequeno almoço pelo nome próprio “colazione” e imediatamente um motard me aborda e me explica o melhor caminho para fugir à autoestrada! Também eu falei pelos cotovelos. Não tem muita piada viajar sozinho quando se acarta a tal barreira linguística. No Zebrabar encontrámos outro motard, o Terry: um inglês de 50 anos que viaja numa BMW R100GS que podia competir como “rat bike” mas é na realidade uma preparação HPN muito bem disfarçada: Marzochi Magnum, disco e pinça MAP, paralever mais comprido, carreto da 5.º modificado,... será esta a moto ideal? Uma coisa é certa, desperta muito menos a atenção que qualquer das nossas.

O Terry é raposa velha e explica-nos os truques das passagens fronteiriças – segundo ele, só é preciso tempo. Quando lhe pedem dinheiro diz que não tem. Quando lhe dizem que se não pagar não passa, diz que espera. Quando o vêm começar a fazer chá, já com a tenda montada, normalmente desistem de o chatear e mandam-no seguir.

No Zebrabar está ainda um casal de suíços que viaja num Land Cruiser bem transformado. O carro tem 18 buracos de bala e três delas ainda estão dentro do suiço. Aconteceu há menos de um mês, na Guiné-Conakri. Deixaram uma pista principal para escolher um sítio para acampar, passado pouco tempo começa o tiroteio. Ninguém os roubou, ninguém os interpelou. “Só” os balearam... Por comparação o Senegal parece-nos um sítio muuuito civilizado e amistoso enquanto vamos de taxi jantar à Ille de Saint Louis. Entramos pela ponte de Faidherbe, projectada pelo Eiffel para atravessar o Danúbio. E somos largados mesmo em frente ao Hotel de la Poste, onde pernoitavam os ases da Aeropostale, como Saint Exupéry e Jean Mermoz

Depois da janta ainda fomos ao Iguana, mas não nos podemos demorar. O Zebrabar ainda é longe e combinámos uma hora com o taxista.

Sábado, Abril 23, 2005

Diario, dia 08 - De Sant Louis a Dakar

Hoje fui o último a acordar... a sinusite lixou-me o esquema de levantar com o sol. Os outros já levantaram campo e comeram. Doi-me a cabeça. Não temos pressa e vou devagarinho ao pequeno almoço Zebra que inclui sumo de laranja natural, ovo quente, café de filtro, compota caseira... tudo isto, na esplanada sob os coqueiros e com uma aragem fresquinha a acompanhar. As aspirinas começam a funcionar e não se está nada mal aqui. Volto a interrogar-me quando vamos nós viajar com tempo suficiente para ficarmos o tempo que nos apetecer nestes sítios.

É essa a opção do John, o holandês da KTM. Decidiu ficar pelo menos para amanhã. Ele e o Terry acompanham-nos a Sant Louis na KTM. Não sem antes sugerirem que eu atravesse a vau uma zona pantanosa que separa a Langue de Barbarie do continente. A ideia era eu ir à frente para os fotografar. O que é facto é que depois de me verem atascar alarvemente no lodo deram de sola a rirem-se, por um caminho perfeitamente praticável que eu não sabia que existia.

Tivemos de deitar a GS para a desatascar e em consequência tive um daqueles momentos negros em que a mecânica não colabora. Não foi nada de especial, mas depois do susto que a GS do Carlos Azevedo nos pregou na praia, estamos todos muito susceptíveis. Parece que os meus cabos de alta tensão já não estão grande coisa e ao deitar o cilindro esquerdo na lama a moto ficou a trabalhar só com o direito. Tive a minha vingança quando o holandês chegou ao alcatrão e deu com o pneu da frente em baixo. Tinha deixado a tralha no Zebrabar e tive de lhe emprestar a bomba. Quando um gajo quando nasce vocacionado para a assistência em viagem, não há nada a fazer.

Separámo-nos à entrada de Sant Louis, onde nós ainda demos uma voltinha com as motos, a ver se descobríamos um sítio giro, barato e com vista para as motos onde pudéssemos almoçar. A cidade é muito bonita e debaixo de um sol franco deixa ainda perceber o esplendor dos tempos em que era a capital da África ocidental francesa.

Muitos edifícios parecem congelados há duzentos anos. Outros foram já restaurados desde que a cidade se tornou património Unesco em 2000. Volto ao hotel de La Poste: Saint-Exupéry é uma das minha referências, casou com os ares e namorou com o deserto.

É pois com curiosidade assumidamente iconográfica que fotografo a placa da Aeropostale tão bonitinha. Será igual à de origem? Não entrámos para perguntar e ver o hotel e foi pena. Mas acho que vou voltar a passar aqui. Decididamente já gosto do Senegal.

Como o pequeno almoço Zebra até rendeu, fizémo-nos à estrada, objectivo Dakar. Andámos apenas 19 km e em Rao surgiu-nos o tal sítio perfeito para almoçar. Parece uma espécie de franchising da Maggi, com uma decoração shocking e um aspecto limpinho e simpático.

As mãos lavam-se na mesquita mesmo ao lado. O muezzin estava a fazer o sound check ao amplificador (a sério!) mas felizmente calou-se entretanto. Almoçámos calmamente e aproveitei para desmontar o ecran da Adventure. Já vinha partido desde a fronteira de Guergarat e uma vez que acabámos as longas ligações de alcatrão e vento já não me faz falta. Além disso, através dele tenho dificuldade em avaliar o calibre dos buracos da estrada e não estou descansado com a minha roda da frente. Já gastei a câmara de ar de reserva e se a trincar numa cratera só me resta remendá-la.

O meu almoço estava bom! Arrozinho míudo com guisado de peixe. Pão e laranjas e café e tudo! Os outros ainda não se deixaram convencer gastronomicamente e continuam a omeletes que também tinham bom aspecto. Depois de arrancarmos a paisagem volta a mudar – as acácias são maiores e o Sahel muda para savana, já há ervas... aparecem os primeiros embondeiros, gigantes, imponentes. As terriolas são simpáticas e têm aquele ar arrumado que falta às cidades

Não sei se é por ser sábado mas as mulheres são todas parecidas com a Naomi Campbell!! Até Dakar aumenta a densidade de pessoas, Naomis incluídas. Chegámos aos arrabaldes da capital ao lusco-fusco. A estrada é larga, movimentada e poluída. Temos um waypoint para um parque de campismo, o Hippo, que esperamos seja parecido com o Zebra. O gajo que tirou o waypoint deve ser da minha raça, pois naquelas coordenadas não mora nenhum “campement”. Seguiu-se um rali paper pelas ruelas de uma aldeia de pescadores entre a estrada e a costa. As ruas são de areia relativamente funda e temos mirones com fartura – o que aumenta 200% o grau de dificuldade de qualquer pista. Lá conseguimos descobrir os restos mortais do tal Hippo. Felizmente está fechado pois parece um campo de refugiados pequenino. Decidimos ficar no hotel Flamboyant mesmo à beira da estrada principal e ir jantar ao centro de Dakar de moto. O nome não corresponde bem ao aspecto do estabelecimento mas está acima dos nossos mínimos e o preço não escandaliza.

Aproveitei a cobertura de GSM e falei para Portugal a matar algumas poucas saudades. O André está em Tancos a ver a mesma Lua cheia que eu – parece que vou perder o que seria o meu primeiro salto nocturno! Cães! pensei eu! O gajo está em Dakar! Cão! pensam eles. O dono do hotel convence-nos que é perigoso levar as motos à noite mesmo para o centro e lá nos vende baratos os serviços de um taxi. Perigo por perigo mais valia ter enfrentado o de perder a moto! O trânsito é caótico, os peões atiram-se para a estrada e nós é que nos sentimos vulneráveis dentro do taxi que parece que vai perder uma roda a qualquer momento.

Ao menos o taxista é simpático no seu papel de cicerone. Não parece é conhecer muito para além da Place de l’Independance. É grande e bonita, lembra Marselha. Combinamos uma hora para o regresso e escolhemos o Viking para jantar. São dez da noite e as ruas estão escuras e estranhamente calmas. Enquanto esperamos infinidades pelo jantar, vão chegando Naomis e cavalheiros brancos ao bar.

A atmosfera tornou-se engraçada com os ocidentais decadentes a fazer lembrar mercenários, artistas e personagens de Corto Maltese. Quanto a nós, estamos muito bem dispostos: há música ao vivo, uma guitarra muito bem tocada. Nós também estamos um bocadinho (... tocados... ) e felizes de estar no destino mítico, a Dakar dos Parises Dakares todos da nossa adolescência. O jantar atrasou-se e vamos buscar o taxista para beber uma Gazelle conosco. Acho que lhe demos uma boa prenda, as ruas estão agora iluminadas, há imenso movimento e dá para perceber que o Viking está manifestamente in.

Os vinte quilómetros de regresso ao hotel fazem-se no meio de uma balbúrdia imensa. São duas da manhã e esta gente não dorme!

Domingo, Abril 24, 2005

Diario, dia 09 - De Dakar ao Barracuda, algures no delta do Saloun

No Flamboyant um catraio oferece-se para lavar as motos enquanto tomamos o pequeno almoço. Elas bem precisam e nós aceitamos. O plano para hoje é simples: primeiro vamos em peregrinação ao Lac Rose, depois seguimos para Sul até um sítio qualquer.

Os subúrbios de Dakar que temos de atravessar para descobrir o Lac Rose não são bonitos. Mas há qualquer coisa de dinâmico, de grande movimento, que me faz gostar destes sítios. Têm de ser as pessoas. A primeira vez aconteceu-me em Luanda, já lá vão uns quantos anos. A cidade estava cheia de lixo e apresentava cicatrizes de guerra. No entanto, o bulício todo, a dinâmica das pessoas e a alegria dos miúdos deixaram uma impressão muito positiva. No fundo é a antítese da baixa lisboeta a um domingo de manhã. Em regra não gosto de cidades, mas as cidades vazias são mesmo deprimentes. Aqui as pessoas são muuuuitas, as ruas nunca estão vazias e o ambiente é alegre.

Lá demos com o lago que é mesmo côr de rosa. O teor de sal é elevadíssimo, mas a côr rosa é devida a uma bactéria qualquer. Para nós é tinto! A característica notável do Lac Rose não é a côr! É o facto de lá terminar invariavelmente o Paris-Dakar. No último dia de prova, faz-se uma especial de cerca de 30 Km. Além de consagrar vencedores, esta especial é a última oportunidade para os mais rápidos conseguirem uma vitória numa etapa. Grandes despiques têm ocorrido, com motos com depósitos de 30 e tal litros a competirem como numa pista de motocross. Em 2002, por exemplo, o Paulo Marques ficou a apenas um segundo do Giovanni Sala na luta pelo primeiro lugar na etapa. Para os outros, os lentos, o Lac Rose é uma miragem que pode durar até quinze dias. Todos sonham lá chegar e a maioria não consegue.

Iam seguir-se momentos de introspecção, e eu ia recolher uma amostra da água para o meu amigo Zinga, quando fomos distraídos por uns miúdos a vender bugigangas para turistas. Está visto que o local é alvo de muita romaria! Bom, vamos mas é dar uma volta a isto, ao lago! Os putos olharam desconfiados para o porte das motos e das malas, inversamente proporcionais ao aspecto dos pilotos (excepção feita ao Miguel Casimiro que nesta viagem exibe o ar mais “piloto de fábrica” de todos nós) e perguntam inocentemente “mais ça monte les dunnes???”.

O “ça” era claramente depreciativo: já lá deve ter passado muita GS que se foi atascar nas dunas... “On essaye” foi a resposta, a não querer aumentar as expectativas. E ensaiámos com sucesso!

Atingimos a praia pelos traços repetidos de todos os competidores que já lograram terminar a mítica prova. Desculpem o tom histriónico, mas isto são muitos anos a chorar em frente ao Eurosport!

Em todo o caso, a pistazinha não é pêra doce. É mais ou menos como a Comporta (outra vez a Comporta! deveria ser considerada reserva natural de aprendizes a motard africano...) mas com umas subidas valentes. Parei no alto de uma para documentar fotograficamente o momento histórico e estava a ver que já não arrancava a descer

Gastámos a manhã na voltinha ao Lac Rose, mas valeu a pena, tal foi a realização.

De volta à estrada passámos a reserva de Bandia e optámos pelo safari. A reserva é um bom exemplo de conservação da natureza e de negócio muito bem feito. Vimos antílopes, impalas, búfalos, girafas, rinocerontes... a bicharada toda. A mim não me entusiasma por aí além o conceito de reserva... era bom que subsistissem mais parques naturais com extensão suficiente para alojar todos estes bichos mais os seus predadores naturais.

As reservas como a de Bandia são uma espécie de reforma dourada para os herbívoros: condomínio fechado, ausência de predadores e cuidados médicos gratuitos. Em todo o caso, só pela flora a voltinha teria valido a pena. Avistam-se bosques de embondeiros, surreais nas suas enorme dimensão e esparsa densidade. O guia é simpático e conta-nos a história dos funerais dos griots ao pé de um embondeiro com caveiras lá dentro. Os griots são os bardos, poetas tradicionais, guardiães da tradição oral, membros de uma casta específica.

Animam as festas, contam hitórias, falam em público. Apesar da função intelectual, ou se calhar por causa dela, a casta é das menos valorizadas. Como nunca trabalharam a terra não poderiam ser enterrados nela, sob pena de a tornar infértil. Quando morriam, os outros habitantes da aldeia escolhiam um embondeiro adequado e sepultavam-nos lá dentro

Num esforço de modernização, Leopold Senghor, o primeiro presidente do Senegal, poeta ele mesmo (embora não pertencendo à casta dos griots) atendeu a uma reclamação de igualdade dos poetas e legislou no sentido destes poderem ser enterrados. Alguns senegaleses acreditam que começaram nesse ano as grandes alterações climáticas globais.

Bebemos uma cerveja no restaurante da reserva, mas estamos em modo poupança. Não vamos almoçar aqui, apesar do aspecto sumptuoso da cozinha e do serviço. Em vez disoo, parámos numa vila e comprámos mangas e pão para o almoço. Um miúdo talhante leva-me simpaticamente ao padeiro. Conhece os planteis da primeira divisão portuguesa muito melhor que eu (convenhamos que não é difícil) e começo a perceber esta diferença significativa para a Mauritânia.

O futebol aqui é forte e dá para estabelecer contacto com uma simples palavra: “Figo”. Mas mais sobre o craque da bola mais adiante... J O almocinho é mesmo à beira da estrada e devem estar uns 40ºC a uma sombra que não existe. De seguida saímos finalmente do itinerário principal para uma estrada que perdeu o alcatrão. A paisagem continua a mudar até à zona do delta do rio Saloum. Atravessámo-lo num ferry por 1200 CFA (Francos Centro-Africanos 655=1 EUR) tendo direito a colete salva-vidas obrigatório.

Uns míudos de uma organização tipo escutista batucavam e cantavam com um ritmo fantástico, a luz do crepúsculo caía sobre a pista linda que nos esperava do outro lado do rio.

São momentos assim que nos garantem que estamos a fazer a viagem certa! O Carlos Azevedo, não consegue segurar o ímpeto artístico: tal é a perfeição da cena que tem mesmo de fotografar umas míudas a moer algo num pilão e deve ter saído uma daquelas fotos National Geographic!!

Na altura de decidir se deveríamos acampar ou avançar para a fronteira com a Gâmbia vimos uma tabuleta a anunciar um tal de “Hotel les Barracudes” por uma pista à nossa direita. Não parecia nada plausível um hotel naquela direcção mas já que se faz tarde vamos arriscar. Seguiram-se mais de vinte quilómetros de todo-o-terreno exigente, à luz dos farois.

Em cada aldeia em que perguntávamos, respondiam-nos simpaticamente “Les Barracudes? Oui, c’est pas loin” e seguiam-se mais 5 km de areia. Efectivamente, iam aparecendo em determinados cruzamentos umas tabuletas muito bem feitinhas “Barracudes”. Lá chegámos e percebemos que a perfeição das tabuletas condizia com a qualidade do sítio.

O preço é que não era simpático. Tentámos negociar mas o gerente não cedeu muito. Fizémos bluff “Então vamos embora” e como era época baixa resultou! A nossa proposta ultrapassava os limites de decisão do gerente. Foi em busca do patrão. Este aceitou as nossas condições: os 4 num bungalow, pelo preço de dois e já com oferta de pequeno-almoço tudo porque “Ils sont motards”. Ficámos muito satisfeitos tinha sido um dia comprido e enquanto regateávamos tínhamos entrevisto uma piscina que prometia estar (e estava!) a 30º!

Segunda-feira, Abril 25, 2005

Diario, dia 10 - Do Barracuda, algures no delta do Saloun, a Baila (Gambia-Senegal)

Tinha voltado a esquecer-me dos mapa-mundi, ocorreu-me no ferry, enquanto explicava a um rapazinho vestido com um uniforme colegial onde ficava o país do Figo. O ferry atravessava de marcha-atrás o rio Gâmbia. De marcha atrás para mim, que fiquei entalado entre uma escada de peões e um Nissan Patrol. Ainda demora uma boa meia hora. A disposição não era a melhor... a minha posição no barco era incómoda e tínhamos sido “assaltados” na fronteira.

Para sair do Senegal não pagámos nada, mas para entrar na Gâmbia pagámos taxas legais e ilegais. Explicámos que teríamos de levar um recibo para Portugal com todas as nossas despesas – “It’s not the procedure here. You pay, you go” Insistimos que não podemos pagar nada sem recibo. Seguiu-se um impasse. Às tantas parecia que íamos ganhar... mas os filhos da mãe dão-se ao luxo impune de carimbar e assinar um papel a dizer que nos roubaram não sei quantos CFA’s

Depois da fronteira ainda fomos parados num controlo policial. “You pay you go” deve ser a cantiga em primeiro lugar no top Gâmbia. O Carlos Azevedo passou-se e insultou o polícia em português. “You pay you go o car#$%&%/lho!!, Vai para a p&&/ que te p&%&, vai-te f$&()=?, não pago nada!!”. Contra todas as expectativas, funcionou.

Os mapa-mundi eram uma ideia que tinha tido o ano passado. Toda a gente nos pergunta de onde vimos, se atravessámos o deserto, quantos dias se demora e no fim querem trocar moradas. De maneira que um cartão de visita com essa informação toda seria utíl J. É um costume que me intriga desde que fui a Marrocos a primeira vez. Para que querem eles a morada??? Desde então tenho-a anunciado a centenas de pessoas e nunca ninguém me procurou! De qualquer forma também já perdi a vontade de dar nem que seja um cartão de visita aqui ao rapazito gambês: já me estava a querer cravar uns euros..

O ferry atraca finalmente em Banjul e no desembarque somos interpelados bruscamente por um funcionário do porto “push the bike back” grita malcriadamente duas ou três vezes. “can you say please?” gritei-lhe o mesmo número de vezes, ainda mal disposto de ter atravessado o rio em reverse. Começo a pensar que não gosto destes gajos... e não gostei da capital deles

Banjul é uma cidade incaracterística e, claro, movimentada. Atravessámo-la pela estrada principal que estava pejada de carros que não andavam para lado nenhum. “Segunda circular à hora de ponta...”, vou eu resmungando enquanto metia segunda e furava entre o trânsito.

De repente levei a segunda injecção de adrenalina da viagem: uma míuda aparece-me a correr de entre dois carros à minha direita. Travei a fundo e não iria conseguir parar. No limite, larguei os travões e faço um S para a esquerda convencido que ia malhar mas que pelo menos talvez a conseguisse evitar. Não aconteceu. Passei a milímetros dela e dos carros à minha esquerda. Fiquei lixado comigo – são aquelas coisas que não podem acontecer de moto em lado nenhum e muito menos em África, em viagem.

Ao almoço, a disposição lá melhorou. A cerveja da Gâmbia é bem boa e arranjaram-nos umas febras de porco com batatas fritas que estavam óptimas. Enquanto esperávamos, olhámos os mapas tentando decidir um trajecto. Estávamos poucos quilómetros a Este de Banjul e podíamos continuar pela Gâmbia ao longo do rio, pela estrada cravejada de crateras ou descer ao Senegal. A conta do almoço ajudou a desempatar a questão. 12,5 Euros/cabeça. A Gâmbia estava a sair cara. “Vamos para o Senegal” foi o grito unânime, sobrepondo-se ao Best Of Jimmy Reeves com que a cozinheira insistiu em castigar-nos.

Desta vez íamos preparados para vender cara a pele. Raios nos partíssem se íamos pagar bakshish na fronteira! Nem que lá ficássemos um dia à espera! Não foi preciso. Não nos cobraram nada. Há macacos nas árvores ao pé da fronteira. E ainda nos divertimos com os senegaleses. O oficial da polícia, ao sair do escritório olha de soslaio para o Teles e reconhece alguém. Incrédulo não diz nada. Depois abre a boca a medo e eu atalho “É o Figo, não é?”

Grande risota! Fizémos um bocado de conversa de bola. É um tema fácil (até para mim, que aprendi o que era um fora de jogo aos trinta anos!) e põe os senegaleses bem dispostos e cheios de sentimentos fraternais para com os tugas. Especialmente se referirmos a eliminação que a selecção Senegalesa infligiu aos franceses no Mundial da Coreia!

Repetimos a cena Figo na bomba de gasolina logo à frente. As pessoas são afáveis e bem dispostas. Pagámos em Euros e fizeram-nos o câmbio a uma taxa boa. Que contraste com a Gâmbia! O Carlos Azevedo tinha ouvido falar de uma espécie de parques de campismo geridos comunitariamente, aqui na região de Casamance, de maneira que perguntámos onde existiam nas proximidades. Acabámos por chegar mesmo ao lusco-fusco a um desses campos, em Baila

Os alojamentos estão cheios de míudos franceses e respectivos professores que cumprem alegremente um programa de “intercâmbio unilateral”. Unilateral no sentido em que os franceses visitam o Senegal e os senegaleses não têm dinheiro para ir a França.

Enquanto combinávamos acampar, tivémos uma amostra de outro intercâmbio: os rapazes que estão a trabalhar nesse “campment” percebem português! Estudaram-no na escola, como segunda língua. Já só conseguem arranhar umas palavras mas compreendem as nossas frases simples.

A noite foi passada à conversa com o professor de matemática. Conhece bem Angola e está para se desterrar para Madagascar onde a mulher arranjou emprego bem pago. Quanto a ele vai ficar desempregado. É uma situação invejável!!!

Terça-feira, Abril 26, 2005

Diario, dia 11 - De Baila a Mansaba (Guine-Bissau)

Já estamos na Guiné!! Não era este o plano mas não faz mal pois o nosso plano também não estava lá muito rigidamente delineado.

De manhã saímos do tal campment de Baila por uma pista muito bonita em direcção a um fromager sagrado. Um fromager é uma árvore gigante, mesmo comparando com os embondeiros, e mais consistente que este. É do fromager que se constroem as pirogas que vamos encontrar.

O tal, o sagrado, era de facto enorme mas acabámos por não saber de onde lhe vinha o ascendente. Pertencia a uma família muito bonita a quem vamos ter de enviar a respectiva fotografia.

Entretanto passámos em Bignona, uma cidadezinha simpática, de tamanho médio e onde até conseguimos descobrir um ATM. Após algumas dificuldades técnicas lá sacámos mais alguns CFA's para o bolo comunitário. Enquanto esperávamos que o multibanco ganhasse vontade de colaborar fomos assediados comercialmente pela Fátima. Moça expedita que começou por declarar "os portugueses são os africanos da Europa". É um cliché conhecido, mas achei-lhe tanta piada que a deixei impingir-me colar e pulseira, regatear sozinha o preço e distribuir o troco por uns míudos que por ali esperavam! Devidamente enfeitados de artefactos tribais, fizémo-nos à estrada, para Este, em direcção ao parque natural de Niokolo Koba, a cerca de 300 kms. Estava um calor terrível e impôs-se uma pit stop nas margens do rio Casamance.

Embora rápido, à conta de uns crocodilos que não vimos mas que nos disseram existir, o banho soube bem e, apesar do bafo quente, conseguimos avançar até uma terriola para almoçar. Arroz míudo com molho de farinha de peixe, pão e coca-cola morna. Estava muito calor!

Arrastei-me até Tanaf, com a viseira fechada. Com o termómetro da moto a atingir as 7 barras e a água a acabar novamente, parámos para conferenciar. Estava provado que não fazia sentido rolar entre as 11 e as 16H00. E, nesse caso, para fazermos a quilometragem necessária e chegar à Guiné com tempo de tratar das formalidades de exportação das motos, não ia dar para entrar tanto para o interior do Senegal. A decisão tomou-se com dificuldade: vamos descer para a Guiné e tratar das papeladas. Depois ficamos com os dias que sobrarem para vadiar por lá.

A fronteira desse lado, o senegalês, passou-se nas calmas. Apesar do Miguel exibir grandes molhos de Euros e CFA's para chegar ao passaporte :-), os gajos só se fizeram timidamente a uma gratificação. Como estamos a ficar cromos nisto das fronteiras despachámo-los num instante.

Os 10 km's que se seguiram - pista em terra de ninguém - o Miguel fê-los alegremente desiquilibrado para a direita: deixou cair a mala esquerda e não deu por isso :-). Eu, que vinha atrás, atei-a à GS e só consegui devolver-lha na Guiné. O sol tinha-se baixado um bocadinho mas continuava a fazer muito calor quando chegámos ao posto fronteiriço de Farim, marcado com um cabo de aço atravessado na pista e tudo. "Boa tarde" dissémos nós. "Bóá tarde" responderam-nos eles. Faz sempre um efeito giro... não sei quantos milhares de quilómetros de casa, um continente diferente, um deserto pelo meio... e respondem-nos na nossa língua! Seguiram-se as perguntas da ordem, que nos haverão de repetir invariavelmente nos próximos dias, sempre que pararmos:"de onde vêm?", "de Portugal?!?!? Sempre na moto?!?!?", "Quantos quilómetros?" , "quantos dias?", "quem é do Benfica?" "você é do Sporting?"... Foi uma festa!...

... e continuou em Farim propriamente dito onde fomos levados à administração das Alfândegas para carimbar o bendito carnet. Fomos rodeados por dezenas de guineenses. O campeonato nacional (o nosso) está ao rubro e na Guiné a coisa é a sério: contabilizaram imediatamente as simpatias clubísticas da nossa comitiva. Como o tema é futebol, o nosso Figo postiço, o Teles, é logo identificado e, talvez por isso, uma série de gente ajuda o Miguel a rependurar a tal mala esquerda. Entretanto, eu e o Carlos Azevedo estamos em frente à secretária do Major das Alfândegas, com os queixos literalmente caídos

Estávamos a tratá-lo com as devidas mesuras: já era tarde e percebemos que estavam a dispensar-nos horas extraordinárias. Além disso temos aquela má consciência de povo ex-coloniador... e eis que o senhor pergunta: - Então... e foram à tropa? Eu e o outro reservista, em uníssono: - Não. Conclui o major: - Então não sabem o hino... o hino nacional. Antes de termos tempo de responder que sim, começa ele, acompanhado do Tenente que o secretariava: -"Heróis do mar, nobre povo, nação valente...". E assim continuámos, os dois tugas e os dois militares guineenses, até à estrofe dos egrégios avós! Surrealista, acho que agora é mesmo o termo. De seguida o Major ainda mandou o Tenente escoltar-nos ao ferry, à nossa frente, 4 piscas num carro civil, para fazermos 500 metros até ao rio Farim onde o pôr do sol dourava tudo. Estava a ser um dia bom

Do outro lado do rio começámos a cheirar o caju maduro. É a época das respectivas colheitas e nos próximos dias vamos acabar por nos habituar ao cheiro doce. Fizemos a pista até Mansabá, ao lusco-fusco, a dispensar "boas tardes" a pessoas espantadas e que cheiravam muito bem a caju. À entrada de Mansabá perguntámos se havia hotel, pensão ou estabelecimento do género...começaram a falar-nos em presidente, administrador...não percebemos muito bem mas afinal levaram-nos até à casa do administrador do distrito (em crioulo chamam-lhe "Présid"). Parece-me que funciona como uma espécie de presidente de câmara. Já é noite escura e não há luz eléctrica, mas percebemos que a casa dele é grande e que podemos lá ficar.

O presidente prometeu descobrir-nos cerveja fresca e levou-nos a casa do secretário Domingos onde dentro de uma geleira apareceram umas Cristais fresquinhas: a festa continuou no alpendre do Présid onde cozinhámos jantar. O secretário Domingos juntou-se-nos para a sobremesa e acabou por levar para casa uma quantidade de comida que já não pensamos necessitar. Ficámos amigos.

Dormi no alpendre, enquanto o Miguel ficava até às tantas a dar à língua com os nossos anfitriões. Foi um dia bom e estamos felizes de estar na Guiné

Quarta-feira, Abril 27, 2005

Diario, dia 12 - De Mansaba a Bissau

De Mansabá a Bissau são menos de duas horas que fizémos logo de manhã, pela fresca. A estrada, bem esburacada até ao cruzamento de xxxxx, é bem bonita. A Guiné é bonita, constatámos já sem surpresa.

Tal como Bissau, que retém uma romântica patine e um sossego e uma limpeza pouco condizentes com a condição de capital africana. Mas, também, são só cento e tal mil habitantes. A zona mais agitada é o Mercado de Bandim, logo à entrada. As ruas são largas, com árvores nos passeios. Os edifícios são pequenos, na sua maioria vivendas de dois pisos e todos parecem das décadas de 40 a 60. Há uma zona mais antiga, Bissau Velho, junto ao porto. É para lá que vamos depois de duas cervejas e dois dedos de conversa com o Sr. Diniz na esplanada do Império, junto à Praça dos Herois Nacionais.

O despachante que temos de contactar fica junto à Fortaleza d'Amura, onde está sepultado Amílcar Cabral. Aguardámos na rua que o Carlos Azevedo iniciasse o processo de negociações que vai fixar o preço do serviço de despacho. Durante essa espera, o Miguel foi testar a eficácia do dispositivo de segurança da Fortaleza d'Amura. Parou à porta e aprontou a máquina fotográfica... enquadrou a sentinela e só não disparou porque o soldado já estava a puxar a culatra e parecia querer disparar primeiro. Quando nos veio contar o episódio já tínhamos encontrado o Russo.

O Russo, aka "o Soviético", é bem português. Chama-se João Russo e está na Guiné com um cunhado para implementar um negócio de reciclagem de ferro. Por enquanto está à espera que as máquinas que necessita lhe saiam da maldita alfândega. Quando nos viu, a mim e ao Teles, em cima das motos e percebeu que éramos tugas, ficou radiante e veio ao nosso encontro de mão estendida e alma aberta: '' João Russo, Motards do Ocidente!" apresentou-se ele.

Eu, que da cena motoclubística só conheço os Meninos do Coiro, de Penedos, Alenquer, fiquei meio baralhado. Está bem que vínhamos de Portugal, e estávamos junto ao forte, e tal, mas não era razão para nos receberem com declarações épicas "As motos e os motards assinalados que da Ocidental praia lusitana"... Desfeita a minha confusão, o João, o Russo, ofereceu-nos logo estadia. Está numa vivenda em frente á Presidência da República, tem sítio para guardar as motos e vigilante privativo. Foi uma oferta sincera e fez questão que ficássemos logo com o número de telemóvel dele.

Continuámos a ronda dos despachantes. Aliás, continuou o Carlos Azevedo, que nós abancámos o resto do dia no Tamar, uma cervejaria em Bissau Velho, que parece congelada no tempo desde os anos 50. Congelados não eram os camarões tigre que lá descascámos ao almoço. Está muito calor, já percebemos que a esta latitude, mesmo junto ao mar, entre as onze da manhã e as cinco da tarde estarão sempre para cima de 35°.

Depois de mais umas voltas a investigar como levar as motos para Bubaque nos Bijagós, desistimos da ideia - não há ferry com regularidade, só pirogas. Um barco de pesca custaria para cima de 500 euros e parece-me que no processo de carga e descarga alguma moto se teria de se demonstrar anfíbia. Vamos sem moto, amanhã, de piroga.

Regressámos ao que vai constituir o nosso ponto de encontro em Bissau, a esplanada do Império e as saborosas conversas com o Rocha Diniz, o proprietário. Recomendou-nos o Hotel Jordani, de modo que seguimos para lá para jantar, ver o Chelsea-Liverpool e avaliar o custo do alojamento. Essa avaliação leva-nos a aceitar a oferta do João, que ficou todo contente de nos receber.

Na escuridão absoluta que se abate sobre Bissau tivémos dificuldade em descobrir a casa pois há alguma confusão entre o Palácio da Presidência (o edifício semi-destruído junto da Praça dos Heróis Nacionais) e a Presidência da República. Mas com a ajuda de um português funcionário da nossa embaixada e do dono do Restaurante Benfica Papalouca, lá chegámos

A casa é grande, um T4 com jardim murado, gerador privativo e uma reserva de água de alguns 2000 litros. Há cerveja no frigorífico, o que é muito conveniente para tomarmos o maldito anti-palúdico: hoje é dia de droga. Amanhã vamos para as ilhas!

Quinta-feira, Abril 28, 2005

Diario, dia 13 - De Bissau a Falacunda

Íamos para as ilhas, pensávamos nós enquanto tomávamos o pequeno almoço (Fanta, sandes de chouriço e café) no Império. O Sr. Diniz, que viveu nos Bijagós durante uns anos - construiu um hotel e tudo - conta-nos maravilhas de lá.

Mas não havia de ser assim. Não havia ferry, o barco de pesca era caro, e as pirogas também não hão-de aparecer. Estamos quase no primeiro de Maio e os barcos andam todos a preparar a festa, trazendo gente para Bissau. Uma simples piroga para nos levar ao paraíso... não há.

Ai é? Pois que se danem as ilhas. De qualquer forma estamos decididos a voltar à Guiné. Os Bijagós ficarão para a próxima. Por agora vamos... andar de moto. Voltámos a carregar a tralha e saímos de Bissau. O polícia na rotunda do aeroporto mandou-nos parar só para cumprimentar. Simpático, há-de repetir o ritual de todas as vezes que lá passarmos. Parece que noticiaram na rádio que quatro turistas portugueses andam de moto a visitar a Guiné: já somos famosos.

Em Bambadinca há uma paragem de autocarros movimentada. Dezenas de mulheres com tabuleiros à cabeça vendem bananas, mangas, sandes de ovo e cebola, bolos, fritos, pão e bebidas. É como uma área de serviço mas muuuiiito mais barato. Aproveitámos e almoçámos rodeados por montanhas de crianças.

Continuámos em direcção ao Saltinho, uma zona de rápidos no rio XXXX onde há uma pousada num antigo aquartelamento português. Quando lá chegámos fazia uma brasa descomunal. Mas havia cerveja fresca e o rio para tomarmos banho. A pousada é giríssima, numa colina sobre o rio. Estivémos quase a ceder à tentação de lá ficar, mas a nossa vida não é isto!

Depois do Saltinho o alcatrão esburacado acaba e para nosso alívio começa a picada de terra batida. As estradas de alcatrão esburacado são muito cansativas, raramente se consegue passar de 3.a e as trancadas na suspensão, nos ossos e na roda da frente são terríveis. Por vezes dá para rolar na berma de terra batida mas com todas as cabras, porcos, galinhas e crianças que podem surgir do mato a todo o instante também não dá para arrear a concentração. Fazer estas estradas num carro nem quero imaginar!!! Estimo que a média horária seja metade da que fazemos na moto e o desconforto aumente para o dobro

Chegámos a Fulacunda ao fim do dia. É uma aldeia grande. O Sporting discute a meia final da taça UEFA dentro de momentos e eu quero ver o jogo. Logo eu, que não ligo pevide à bola! Ando a ficar influenciado com tanta conversa de futebol neste país! A acção vai desenrolar-se no barracão que contratámos para dormir. Um pequeno gerador à porta, uma antena, um televisor de 55 cm chegam para cerca de 40 ou 50 pessoas. Pagam-se 100 CFA para entrar. Com muita sorte, o Sporting lá arrancou o 2-1 para gáudio dos adeptos fulacundenses e insatisfação dos benfiquistas ferrenhos, a maioria a torcer pelos holandeses, malandros!

Depois do jogo guardámos as motos dentro da barracão. Foi um bocadinho "casa roubada, trancas à porta..." porque já nos tinham rapinado umas luvas, uma garrafa e mais umas miudezas. Defînitivamente, não convém trazer solto nada que nos faça falta.

Enquanto fabricávamos o jantar, houve projecção de telediscos, a partir de um leitor de DVD's. Viram os mesmos 5 algumas 10 vezes - umas coisas de uns rappers quaisquer, gravadas num qualquer Bronx e que me pareciam mais longe de Fulacunda que a Lua. Depois dos telediscos ainda começaram a projectar um filme estranhíssimo: uma espécie de Matrix, com actores de Hong Kong, legendado em inglês e dobrado em francês. Eu, que tenho uma má relação com a televisão, achei logo que os furtos que nos infligiram ali não são dissociáveis dos serões a ver TV. Está escuro como breu e não há água para lavar o focinho. Por hoje ficamos assim.

Sexta-feira, Abril 29, 2005

Diario, dia 14 - De Falacunda a Sao Joao e de volta ao Saltinho

Acordei com o toque que habitualmente uso no telemóvel para despertar: "cócórócócóóó...". Estranho, porque o dito aparelho deve estar para ali dentro de uma mala, já não o vejo desde Dakar (que parece que já foi no século passado!!) . Abro um olho, só um, e vejo o mesmo que os outros: não era o Nokia a cacarejar. Um galo e três galinhas passeavam-se ao nosso lado. O barracão que tínhamos alugado tem outras funções para além das de dormitório e auditório multimédia.

A vantagem de se dormir na capoeira é que se vai cedinho para a pista. A luz é muito bonita a esta hora e vai dissipando uma neblinazinha muito fina que deve ter descido durante a noite. Bosques de cajuzeiros (cajueiros? árvores de caju? Vocês já perceberam.) entremeados com termiteiros gigantescos.

A sério que na Guiné são tantos os termiteiros quantas as árvores. E as árvores são muitas!! Mas não é só a luz. A pista é frondosa, estreitinha, pouco percorrida e muito bonita. Leva-nos a São João onde ainda temos esperança de conseguir embarcar com as motos para Bolama, uma das ilhas dos Bijagós.

Quando perguntámos, a coisa parecia bem encaminhada. "Sim, tem jangada. Há-de vir". Passado um bocado, a informação era "A jangada tem problemas". Mais uma meia hora e concluímos que os Bijagós não nos estavam mesmo destinados. A jangada é de aluminio e parece que alguém a tentou soldar com eléctrodos de ferro. Esburacou.

Demos meia volta. Objectivo Saltinho - se o dono, o Sr. Fernando, nos fizer um preço especial, abancamos.

E fez. De maneira que hoje é dia de luxo. Tomámos banho no rio, bebemos cervejas frequinhas e comemos pão acabadinho de fazer e peitos de rôla estufados num alpendre "África minha" a olhar para a paisagem "África minha". Deu direito a sesta com ar condicionado e tudo.

Fizémos mais um amigo, o Uié. É filho do chefe de uma tabanca próxima e tem muitos recursos. Vai arranjar-nos alguma gasolina e levar-nos à discoteca.

A discoteca chama-se Taliban e fica algures no meio do mato. Chega-se por uma pista estreitinha e arenosa. Calhou-me a mim levar o Uié à pendura e estava a ver que lhe estragava a toillete de abanar o capacete que não levámos. A Varadero levou o Assumane, funcionário da estalagem que também vai à Taliban pela primeira vez.

Imaginem uma escola primária das nossas, daquelas do Estado Novo. Do telhado só sobram vigas e barrotes, o ripado e as telhas já desapareceram. É uma discoteca descapotável, portanto. Lá dentro batem uns ritmos mais techno que afro e que o Miguel identifica pelos nomes próprios. Além das estrelas só dois spots coloridos compõem a iluminação, som e luz alimentados por um geradorzito nas traseiras. A entrada custa 250 CFA e não há idade mínima. Vêm-se crianças de colo. Gazelles (é o que se chama ás miúdas giras na África Ocidental) é que nem por isso. As que há, o Uié conhece-as todas e com todas dá um pezinho de dança. O DJ, atempadamente informado da nossa proveniência, dedica aos turistas portugueses uma espécie de espectáculo de breakdance que uns artistas vindos de Bissau estão a apresentar. Aguentámos firme até à meia noite e meia!

Sábado, Abril 30, 2005

Diario, dia 15 - Do Saltinho a algures a Sul de Pirada

Despedimo-nos do Uié e do simpático pessoal do Saltinho. Hoje vamos pelo menos até Gabu (Nova Lamego). Mas a gasolina está contadinha.

Vamos a fuminhos até Bafatá, segunda cidade da Guiné. Sobe suavemente desde um arrozal nas margens do ria Geba, (o mesmo que desagua no canal de Geba em Bissau) e tem um encanto irresistível. Não tem gasolina de bomba mas achámos um bidon com super que chega para todos atestarmos.

A minha GS tem-se queixado um bocadinho das octanas que não abundam. Se a solicito sem cerimónia, grila. Mas o punho já se habituou a não pedir demais e é um regalo ver o escape a queimar branquinho como acontecia na era pré-sem-chumbo, pré-ecológica.

A estrada para Gabu é bonita, claro. Não sei botânica para descrever o que muda, mas há nuances na vegetação que nos cerca e é a vegetação que vai marcando as diferenças de que nos apercebemos. A Guiné não tem grandes acidentes de terreno, só suaves colinas.

Penso que a maior diferença de cotas não ultrapassa os 300 m. De modo que a nossa percepção da paisagem é muito limitada pela estrada. É uma das razões que tem agravado a minha preguiça de fotografar. É que é difícil captar um panorama que não esteja limitado pela estrada ou picada. Até agora as excepções foram mesmo o Saltinho e Bafatá

Uma parte substancial da estrada até Gabu está em obras. Há uns sinais de velocidade máxima limitada a 20 km/h a que, obviamente, não ligámos nenhuma. Não estávamos à espera de controlo de velocidade, de modo que é com alguma surpresa que lev